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Os heróis do capitalismo

 

Entre investidores e empreendedores, em 2007 o Brasil produziu 164 milionários por dia.

E o melhor é que essa bonança veio para ficar.

Veja - 24jan08

   

Há trinta anos, o vietnamita Thai Quang Nghia, então com 21 anos, lançou-se ao mar em um barco improvisado na tentativa desesperada de fugir do regime comunista, no qual enxergava parcas possibilidades de vida decente. Thai ficou à deriva em mar alto. Resgatado por um navio petroleiro da Petrobras, veio parar no Brasil. O jovem imigrante enfrentou grandes dificuldades de adaptação ao país, a começar, claro, pela língua e pela burocracia de legalização de sua permanência. Como a maioria dos imigrantes, Thai trabalhou e perseverou com afinco redobrado. No começo sem muito sucesso. Mas aos poucos sua vida foi melhorando, até dar o passo decisivo de abandonar a idéia de ser empregado para lançar-se em um negócio próprio. Hoje, Thai é dono de uma empresa, a Goóc (raiz, em vietnamita). Ele produz anualmente 3 milhões de pares de sandálias e tem compradores em dezessete países. Entre 2004 e 2007, a Goóc cresceu 500%, atingindo um faturamento de 50 milhões de reais. A improvável história do refugiado do comunismo que trombou com a sorte em alto-mar é apenas uma entre as de milhares de novos capitalistas prósperos no Brasil. Antes, eles apenas sobreviviam e contavam como sucesso o simples fato de não entrar em regime falimentar. Nos últimos anos, porém, estão tendo um progresso turbinado por crédito farto, estabilidade monetária, mercado interno ávido por consumir, abertura para o exterior e perspectivas crescentes de melhora.

Crescer e ser o maior e o melhor em escala mundial é um objetivo viável agora para os empreendedores brasileiros. No passado o sonho era apenas não alimentar as estatísticas de mortalidade precoce das empresas", diz Paulo Veras, diretor do Endeavor, instituto com o radar ligado sobre as águas do mar empresarial brasileiro em busca de talentos empreendedores. O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, um investidor realista e precavido, enxerga uma mudança para melhor em caráter permanente nas condições de nascimento e vida para os empreendedores no Brasil. "Esse fenômeno veio para ficar", escreve Fraga. Que fenômeno é esse? Ele tem múltiplos planos. O de fundo mostra uma economia que começa a colher os melhores frutos de mais de uma década de apostas corretas dos governantes na condução das contas públicas, materializadas pela independência operacional do Banco Central e sua missão precípua de controlar a inflação, pelo compromisso com a produção de superávits primários, pela atenção ao cumprimento dos contratos e pela crescente abertura da economia para o exterior. No plano médio se destaca a chegada do mercado de capitais a sua maturidade. O valor arrecadado por empresas com a abertura de ações na bolsa atingiu 55,5 bilhões de reais no ano passado. São recursos que dificilmente seriam obtidos por meio do crédito bancário – embora este também esteja em alta. Em primeiro plano, por estar mais à mostra do observador, aparece a incrível vocação do brasileiro para aventurar-se no mundo como empresário.

À combinação de fatores acima some-se uma economia mundial ainda sedenta por produtos e matérias-primas brasileiros e tem-se o que os economistas chamam de "círculo virtuoso", a situação mágica em que as inevitáveis imperfeições da economia se auto-anulam produzindo um resultado positivo. Um exemplo clássico disso é o câmbio. A cotação do dólar vem caindo e beira agora 1,70 real. Esse valor é desastroso para os exportadores, que recebem menos dinheiro pela mesma quantidade exportada. Por outro lado, o fenômeno mundial que deprecia o dólar esquenta a procura por exportações brasileiras; assim, o que o exportador perde no câmbio recupera no volume vendido lá fora. O atual "círculo virtuoso" oferece números inebriantes. Pouca gente se dá conta disso, mas um país onde a probabilidade de se tornar um milionário é maior do que a de levar um tiro fatal é um país no rumo correto.
 

Segundo um estudo da empresa de consultoria internacional Boston Consulting Group (BCG), o Brasil tem hoje cerca de 190.000 pessoas com aplicações financeiras equivalentes a 1 milhão de dólares ou mais. Só no ano passado, 60.000 brasileiros tiveram o privilégio de festejar o seu primeiro milhão em um cálculo que leva em conta apenas os chamados ativos financeiros – ou seja, não foram computados os ativos imobilizados, como casas, apartamentos, lotes ou fazendas. Em 2002, os milionários brasileiros por esse critério financeiro eram cerca de 75.000. Em cinco anos esse número aumentou 150%. Ritmo igual só se vê na China atualmente. A multiplicação de milionários e o crescente sucesso dos empreendedores podem ser tomados como indicadores de aumento da prosperidade geral do país? No caso do Brasil e da China, sem dúvida. Ninguém questiona isso fora do círculo dos prisioneiros de uma certa mentalidade jeca-tatu, segundo a qual a criação de milionários só pode se dar pela concentração da riqueza nas mãos de poucos privilegiados. Esses observadores são vítimas de uma das falácias mais toscas que turvam a visão da economia, a do "jogo de soma zero". Ou seja, o meu ganho significa a sua perda. Tolice resistente. Nas economias maduras e nas que começam a amadurecer, como a do Brasil, as transações econômicas tendem a se concretizar apenas se são boas para todos os lados. Quando isso acontece, elas se multiplicam, criando empregos e riqueza. Nesse ambiente, os milionários surgem pelo trabalho árduo como o do vietnamita Thai e dos outros empreendedores retratados nesta reportagem. Surgem também do investimento em ações, o mais espetacular mecanismo de popularização das benesses do capitalismo já colocado de pé. Em 1993, antes do Plano Real, 43% dos brasileiros viviam na pobreza. Hoje são 30%. "Não só a desigualdade vem caindo como também os indicadores de pobreza", afirma o economista Samuel Pessôa, da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. Pessôa lembra que a boa saúde financeira e do mercado de capitais é uma mola propulsora da criação de riquezas. Diz ele: "Quando a bolsa se valoriza, há mais dividendos para ser pagos. A longo prazo, a riqueza financeira acompanha a riqueza real. O setor financeiro também é um setor produtivo; a sociedade fica mais rica com ele".
 

Os indicadores econômicos comprovam que, longe de beneficiar alguns poucos, o avanço da economia tem sido virtuoso para toda a população. No ano passado, foi criado 1,6 milhão de empregos formais no país, um recorde histórico. A economia, que havia se acostumado a taxas de crescimento medíocres que mal ultrapassavam 2%, subiu agora para uma velocidade de 5% ao ano. O consumo se popularizou, e as vendas do comércio subiram 10% em 2007. Um estudo da consultoria Ernst & Young indica que, em 2020, a massa salarial do país chegará a 270 bilhões de dólares. Como resultado desse aumento no poder aquisitivo, o Brasil continuará a assistir a um rápido avanço do consumo interno. Por isso, além de atividades tradicionais como o agronegócio e a mineração, os setores mais dinâmicos e prósperos da economia, nos próximos anos, deverão ser aqueles ligados ao consumo interno. São negócios como a construção civil e a venda de imóveis, o comércio de eletrônicos, os serviços de saúde e educação. Vão surgir daí os novos milionários brasileiros.

O Ibovespa, principal índice da Bolsa de São Paulo, acumula uma valorização superior a 400% desde o início de 2003. A descoberta da bolsa de valores como uma dinâmica e imprescindível fonte de capitais estimulou negócios e ajuda a entender a multiplicação dos milionários no país. Isso porque quem ganha dinheiro não é apenas a empresa que vende ações, mas todas as pessoas envolvidas nesse processo – economistas, analistas de empresas, advogados e os próprios funcionários das companhias. Um exemplo disso é a locadora de veículos Localiza. Em 1998, antes de abrir seu capital na bolsa, a empresa distribuiu ações a 48 de seus funcionários. O preço dos papéis, depois de negociados na Bovespa, chegou a triplicar. Cada empregado levou, em média, 800.000 reais, mas há quem tenha ganho mais de 1 milhão. Nos últimos anos, no entanto, a empresa não cresceu como o esperado e o preço das ações recuou. Faz parte da dinâmica do mercado, quem não mostra resultados acaba sendo punido.

A valorização da Bovespa conta apenas parte da história – mesmo porque já houve febre de investimento em ações no passado e também o Brasil já experimentou bolhas econômicas que não se sustentaram. O que diferencia o atual momento é o despertar não apenas da Bovespa, mas de toda a cadeia financeira, que distingue uma democracia moderna de um país pré-capitalista. Pela primeira vez na história do Brasil há capital de risco disponível para financiar as diversas etapas da criação e desenvolvimento de um negócio – desde o surgimento de boas idéias nas incubadoras universitárias até o lançamento de ações na bolsa de valores. O Brasil galga mais um passo rumo ao amadurecimento pleno de sua economia. É um passo essencial e irreversível, por seu efeito multiplicador de riquezas e de democratização de acesso ao capital. O poder revolucionário dessa transformação já foi testado e aprovado por outros países. Na avaliação do visionário americano Peter Drucker (1909-2005), pai da teoria moderna de administração de empresas, poucos fatos foram tão determinantes para a consolidação da liderança econômica dos Estados Unidos quanto a emergência de uma economia verdadeiramente empreendedora. A popularização do investimento em ações, que só agora se insinua no Brasil, desencadeou-se na economia americana há três décadas. A mudança foi radical. Trabalhadores, antes simples empregados, passaram a ser acionistas de empresas. Tornaram-se capitalistas, no lugar de proletários. É a transformação que começa a ganhar raízes no Brasil, como mostra o caso da Localiza. "Surgiu uma riqueza nova no país. Toda a pujança no mercado de capitais girou uma roda da fortuna. São advogados, auditores, consultores que acabam dividindo milhões em receita de determinado negócio", afirmou Marcelo Xandó, da Verax, consultoria especializada na gestão de fortunas.

O setor privado, como se vê, despertou de seu sono de três décadas, no qual hibernava desde o milagre econômico dos anos 70, e recuperou o espírito animal e empreendedor descrito pelo inglês John Maynard Keynes (1883-1946). Já o setor público insiste em ser um peso atado aos pés dos empresários brasileiros. O ponto mais frágil segue sendo o descabido tamanho do estado brasileiro. Os gastos com o governo representam, anualmente, perto de 40% de tudo o que o país produz (o produto interno bruto, PIB). Se mais recursos ficassem nas mãos das pessoas e empresas, haveria mais dinheiro para o consumo e investimentos, o que alçaria o país a outro patamar de desenvolvimento. Defeito correlato a esse é o endividamento público excessivo. O Brasil precisa ainda aumentar a eficiência da administração pública, reduzir a burocracia e agilizar o Judiciário. Esses fatores negativos fizeram o país perder posições no ranking de liberdade econômica elaborado pela americana Heritage Foundation em parceria com o jornal The Wall Street Journal. Entre 157 nações analisadas, o Brasil ficou com a posição de número 101. Quando a economia brasileira se livrar das amarras da lei trabalhista dos anos 40, do pesado endividamento público e da burocracia infernal, o país será uma aposta ainda mais segura para milhões de milionários em potencial.

Ser milionário é ter uma poupança equivalente a 1 milhão de dólares

100 em cada 100 000 brasileiros já são milionários.

Em 2007, 60 000 brasileiros acumularam seu primeiro milhão.

Isso significa que a probabilidade de se tornar milionário no Brasil é:

   • 22% maior que a de ser assassinado.
   • 50% maior que a de morrer em um acidente de trânsito.

 

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